Série – Corpo, Respiração e Emoções – 2 de 3
Nem sempre percebemos quando nos afastamos do próprio corpo.
Esse distanciamento costuma acontecer aos poucos. Primeiro, deixamos de notar a respiração. Depois, algumas tensões passam a fazer parte da rotina. Os ombros permanecem contraídos, o maxilar apertado, o peito parece sempre rígido. Com o tempo, tudo isso deixa de chamar a atenção e passa a parecer normal.
Mas o fato de não percebermos essas tensões não significa que elas deixaram de existir.
Alexander Lowen descreve que, quando as tensões musculares se tornam crônicas, elas também se tornam inconscientes. O corpo continua sustentando um esforço constante, mesmo que a pessoa já não perceba esse esforço no dia a dia.
Muitas dessas tensões surgiram como formas de proteção. Em algum momento da vida, expressar sentimentos, desejos ou necessidades pode ter parecido arriscado. O organismo encontrou, então, maneiras de reduzir o sofrimento: conter a respiração, endurecer alguns músculos, diminuir o contato com determinadas emoções.
Naquele momento, essas estratégias foram importantes. Elas ajudaram a preservar a integridade do indivíduo diante de situações que pareciam impossíveis de suportar.
O problema é que, quando uma emoção não pôde ser expressada, ela não desaparece — ela permanece registrada no corpo. Essa experiência pode se tornar traumática, fazendo com que o organismo continue em estado de alerta, como se o perigo ainda estivesse presente.
Assim, aquilo que começou como uma resposta temporária pode se transformar em um modo de viver.
A pessoa continua evitando conflitos, controlando o que sente e tentando prever tudo o que acontece ao seu redor. Aos poucos, viver deixa de significar experimentar a vida e passa a significar evitar novas dores.
É como se toda a energia estivesse voltada para impedir que antigas feridas fossem tocadas novamente.
Quando isso acontece, também pode surgir uma sensação difícil de explicar: a de não saber mais quem se é.
Muitas pessoas dizem sentir um vazio, uma falta de direção ou uma dificuldade de reconhecer os próprios desejos. Outras afirmam que vivem cansadas, mesmo quando descansam. Há quem diga que já não consegue sentir alegria com a mesma intensidade de antes.
Essas experiências não significam, necessariamente, que existe algo errado com a pessoa. Muitas vezes, elas revelam o quanto o organismo investiu energia para continuar funcionando apesar do sofrimento.
Na perspectiva da Análise Bioenergética, corpo e emoções caminham juntos. Quando precisamos conter repetidamente aquilo que sentimos, essa contenção acaba se manifestando também no corpo.
Por isso, olhar para as tensões corporais não é apenas observar músculos contraídos. É reconhecer que o corpo guarda a memória das formas que encontrou para proteger a vida.
Talvez seja por isso que algumas dores persistam mesmo quando não existe uma causa física evidente. Ou que determinados padrões se repitam, mesmo quando racionalmente desejamos agir de maneira diferente.
O corpo não está preso ao passado porque escolheu permanecer ali. Ele apenas continua utilizando recursos que um dia foram necessários.
Compreender isso muda a forma como nos relacionamos com nós mesmos.
Em vez de enxergar o corpo como um inimigo que precisa ser corrigido, podemos começar a vê-lo como um companheiro que fez o melhor que pôde para nos manter seguros.
Esse olhar não elimina o sofrimento, mas abre espaço para uma relação mais gentil com a própria história.
No próximo artigo, vamos refletir sobre como esse corpo, que um dia precisou aprender a se proteger, também pode recuperar sua capacidade de respirar, sentir e viver com mais liberdade.
Psicóloga Paula Coelho da Silva – CRP 06/104903
Referências
LOWEN, A. Prazer: uma abordagem criativa da vida. 4. ed. São Paulo: Summus, 1984.



